Retrospectiva 2003
15 de dezembro de 2003
(Fonte:Módulo Security Magazine)
(Autor: Luis Fernando Rocha)
De um lado ataques de pragas virtuais, fraudes por e-mail,
vulnerabilidades e falta de aplicação de correção
em sistemas, novas ferramentas automáticas de invasão
etc. Do outro, investimentos em sistemas de defesa (antivírus,
firewall, IDS etc), política de segurança, capacitação
e treinamento, normas, legislações e regulamentações.
Apesar de as metodologias e técnicas
de defesa terem apresentado novidades importantes, as técnicas
de ataques também seguiram a mesma evolução.
Assim, o ano de 2003 marca o início de uma nova fase
para o mercado de Segurança da Informação:
investir neste mercado passou a ser uma das principais necessidades
dos executivos para prevenir e combater as ameaças
e riscos que rondam os sistemas em redes.
No Brasil, um bom parâmetro para o mapeamento
desta área está exposto na 9ª Pesquisa
Nacional de Segurança da Informação,
realizada pela Módulo entre os meses de março
e agosto. Segundo análise de Fernando Nery, sócio-fundador
da empresa, "a pesquisa, em termos técnicos, ratifica
os desafios principais enfrentados pelas organizações:
A preocupação com vírus,
funcionários insatisfeitos e senhas como principais
ameaças;
O aumento do uso da internet como meio de fraudes e vazamento
de informação, acompanhando o desenvolvimento
dos negócios eletrônicos;
O desafio de conscientizar os executivos, motivar os usuários
e capacitar a equipe técnica, assim como demonstrar
o retorno sobre o investimento da segurança;
A necessidade de realizar análise de riscos e revisar
periodicamente a política de segurança;
O crescimento dos problemas de segurança a cada ano,
acompanhando o crescimento dos ataques, a evolução
da tecnologia e o aumento dos investimentos no setor".
Para o executivo, "a segurança está deixando
de ser técnica para ser normativa e os profissionais
precisam estar alertas para este desafio". Diante deste
cenário, trazemos a seguir uma análise resumida
sobre os principais fatos ocorridos neste ano.
O Ano da Fraude
Igual ou talvez pior que os anos anteriores.
O ano de 2003 revelou que o crescimento das ameaças
e riscos está diretamente relacionado com a migração
dos negócios para o universo eletrônico.
Segundo Cristine Hoepers, Analista de Segurança
Sênior do grupo NIC BR Security Office (NBSO), o contínuo
aumento no número de incidentes é um fator observado
por todos os grupos de resposta a incidentes nos últimos
anos.
A tendência, diz a especialista, é
que estes números dobrem a cada ano. "Por um lado,
a disponibilidade de ferramentas cada vez mais poderosas e
o crescimento na disseminação de worms pela
Internet tem tornado a deflagração de ataques
muito mais rápida e eficiente. Por outro lado, os sistemas
estão cada vez mais complexos e é cada vez mais
difícil mantê-los atualizados ou manter uma arquitetura
de segurança que proteja as redes dos ataques atuais",
explica.
Um dos principais ataques direcionados a organizações
brasileiras e usuários finais foram as fraudes e golpes
on-line. Para se ter uma idéia, somente o número
de fraudes reportadas no terceiro trimestre desse ano foi
maior que o observado no ano de 2002 inteiro, segundo levantamento
realizado pelo NBSO.
A prática se tornou tão constante
na web brasileira, que outro conceituado grupo de segurança
do país, o Centro de Atendimento a Incidentes de Segurança
da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (CAIS/RNP), caracterizou
2003 como o "Ano da Fraude".
"As fraudes mais freqüentes envolveram
páginas falsas de bancos e a instalação
de patches falsos. Os golpes também se proliferaram
neste ano, basta lembrar do Big Brother 4, das 'raspadinhas'
virtuais, dentre outros. Tanto as fraudes quanto os golpes
chegam à caixa postal do usuário através
de spam, com um texto nem sempre bem escrito, sugerindo a
instalação de algum programa em anexo ou disponível
em determinado site. Na maioria das vezes o remetente destes
e-mails é bem parecido com um endereço de e-mail
institucional da empresa vítima do golpe", explica
Renata Cicilini Teixeira, Analista de Segurança Sênior
do CAIS.
Mas se há alguém que pensa que
as autoridades brasileiras estão sendo negligentes
com a ação desses criminosos está enganado.
Em 2003, a Polícia Federal trabalhou com o propósito
de caçar e prender os fraudadores de Internet. E os
resultados foram positivos.
No final de novembro, dez suspeitos de integrar
uma das maiores quadrilhas especializadas em fraudes na internet
foram presos no litoral do Piauí, revelou reportagem
de Mauro Albano da Agência Folha. Ainda em novembro,
a Delegacia de Defraudações e Falsificações
de Fortaleza prendeu Josenias Barbosa dos Santos, acusado
de liderar uma das quadrilhas de fraudadores de internet.
Todas essas ações representam
a continuidade da operação "Cavalo de Tróia",
realizada pela Polícia Federal no início de
novembro, nos estados do Pará, Goiás, Maranhão
e Piauí. A operação contou com um efetivo
de 205 policiais federais (delegados, agentes, escrivães
e peritos) e foi resultado de um extenso trabalho de investigação
em âmbito nacional.
No exterior, a prática de fraudes e
golpes on-line também esteve em alta. Somente no Reino
Unido, clientes de internet banking de instituições
bancárias como NatWest, Lloyds TSB, Barclays, Citibank
e Halifax foram alvos dos fraudadores eletrônicos. Porém,
como aqui, as autoridades internacionais conseguiram realizar
ações com sucesso, efetuando diversas prisões.
Segundo o site ZDNet UK, o National Hi-Tech
Crime Unit (NHTCU), divisão britânica de combate
aos crimes de informática, prendeu em novembro seis
homens acusados de utilizar a internet para fraudar transações
financeiras. As autoridades britânicas estimam que esses
fraudadores causaram prejuízos de 350 mil euros.
Também em novembro, autoridades americanas
anunciaram o resultado de uma operação internacional
envolvendo crimes de internet: após sete semanas de
investigação, 125 pessoas foram presas, acusadas
de fraudes on-line, prática hacking e venda de produtos
roubados.
Já o cracker do Cazaquistão,
Oleg Zezov, de 29 anos, foi condenado em julho por tribunal
americano a 51 meses de prisão por invasão de
sistemas e tentativa de extorsão. O criminoso teria
exigido 200 mil dólares de Michael Bloomberg, dono
da empresa de comunicação Bloomberg, informou
o site The Register.
Em junho, segundo o site Yahoo! UK, a polícia
indiana prendeu o cracker Chiranjeet Singh sob acusação
de invadir os sistemas de instituições financeiras,
como Standard Chartered Bank, American Express, Hong Kong
e Shanghai Banking Corp., People's Bank e Cartasi SPA Milani
Bank, com a ajuda de mais três amigos. Os prejuízos
causados pela quadrilha foram estimados em 200 mil dólares.
Ainda em junho, o Crime Research.org revelou
que a polícia da Bielorússia prendeu dois jovens
crackers de 18 e 19 anos, respectivamente, acusados de invadirem
sistemas de grandes instituições financeiras
dos EUA.
No mês anterior foi a vez da então
recém-criada divisão policial especializada
"Australian High Tech Crime Centre" efetuar sua
primeira prisão de um criminoso virtual. Um jovem de
17 anos foi preso sob acusação de efetuar por
internet banking transação ilegal no valor de
4.890 dólares, relatou o site The Age.com.
De caçador a caça
Em janeiro de 2003, a CNN.com anunciava que
Kevin Mitnick, que ficou conhecido como "um dos mais
procurados criminosos virtuais da história dos EUA",
voltaria a ter acesso à internet no final daquele mês.
A polêmica envolvendo Mitnick, de 39
anos, está relacionada com o fato de o ex-cracker ter
roubado software e alterado dados que causaram prejuízos
de milhões de dólares para empresas como a Motorola,
Novell, Nokia, Sun Microsystems e a universidade da Califórnia
do Sul. Por causa dessas ações, ele ficou preso
por cinco anos e cumpriu mais três anos em condicional
sem poder usar computadores com acesso à internet.
No entanto, parece que o gosto do retorno de
Kevin Mitnick à web foi amargo. Em fevereiro, três
grupos de crackers (um deles brasileiro) conseguiram invadir
os servidores onde estavam hospedadas as páginas do
website de sua empresa, a Defensive Thinking.
Em nota oficial divulgada em 23/02, o "ex-cracker"
foi eximido de qualquer culpa, pois ele nunca teria administrado
o serviço do site, que seria mantido por voluntários.
Parafraseando o velho ditado - de caçador, Mitnick
virou caça.
Em setembro 2003, ele voltou aos noticiários
do país, pois foi o palestrante principal de um evento
de segurança realizado no Brasil.
Ações contra os crimes eletrônicos
Uma das principais medidas tomadas por entidades
governamentais para prevenir e combater o aumento dos crimes
eletrônicos foi criar centros e projetos especializados
no tratamento de incidentes e estudos na área de Segurança
da Informação.
No final de novembro, segundo o site The Guardian,
o Homeland Security, departamento do governo americano especializado
em segurança da informação, revelou que
realizou a primeira simulação de ataques terroristas
físicos e virtuais em computadores, bancos e outros
sistemas vitais do país.
Os testes, chamados de Livewire, foram realizados
durante cinco dias no mês de outubro e simularam ataques
físicos e em computadores de instituições
bancárias, companhias de energia e da indústria
de óleo e gás.
Neste mesmo mês os ministros de telecomunicações
dos países pertencentes à União Européia
(UE) aprovaram a criação da European Network
and Information Security Agency (ENISA), que passa a funcionar
a partir de janeiro de 2004. Segundo informações
do jornal International Herald Tribune, a nova agência
será responsável por criar recomendações
reguladoras sobre riscos aos sistemas de informação
eletrônica, alertar sobre vulnerabilidades em hardware
e software e cooperar com as nações e organizações
não pertencentes à União Européia.
Em setembro, noticiou o CNET News.com, o Homeland
Security anunciou uma parceria com o Computer Emergency Response
Team (CERT), para criação de um centro específico
de prevenção e combate aos ataques virtuais,
denominado US-CERT.
Este centro ficará responsável
por prevenir, monitorar e combater as ações
maliciosas pela internet do país. O objetivo é
que esse grupo seja responsável pelo compartilhamento
de informações críticas entre organizações,
empresas de segurança e agências federais.
As autoridades afirmam que as principais dificuldades
encontradas para se combater os crimes eletrônicos está
no receio das organizações em denunciar as invasões
ocorridas. Pensando em reverter esse quadro, a divisão
britânica "National High Tech Crime Unit (NHTCU)"
anunciou em maio a disponibilização de serviços
de relações públicas para as empresas
que forem vítimas de ataques virtuais.
Em entrevista para o Vnunet.com, o coordenador
da campanha de redução de crimes do NHTCU, John
Lyons, disse que o departamento trabalhará em conjunto
com empresas de relações públicas para
traçar estratégias de mídia que ajudem
as organizações a relatarem tais casos, afastando
assim o temor de publicidade negativo em torno de tais casos.
Legislação e normas
Quando falamos de ferramentas que combatam
efetivamente a ação dos criminosos pela internet
brasileira, um das principais questões abordadas está
na necessidade de se criar uma legislação específica
que garanta a segurança jurídica para se condenar
os autores de tais crimes.
Em novembro, a Câmara dos Deputados realizou
um importante passo para que essa esperança se torne
realidade. Isso porque foi aprovado em Plenário o substitutivo
do Projeto de Lei 84/99, que tipifica os crimes de informática.
Neste momento, o projeto aguarda apreciação
no Senado. "Acho que o Senado Federal agirá rapidamente,
pois o assunto foi amplamente discutido aqui na Câmara,
permitindo que a sanção presidencial seja obtida
o mais rápido possível", explicou o deputado
federal Piauhylino, autor do projeto.
Em termos de spam, uma das soluções
apontadas também foi a criação de uma
legislação específica que reprima tal
prática. Pensando nisso, o senador Hélio Costa
(PMDB/MG) apresentou, em 28/08, o projeto de lei 367, que
pretende coibir "a utilização de mensagens
eletrônicas comerciais não solicitadas por meio
de rede eletrônica". Porém, para os especialistas,
as iniciativas legislativas nessa área merecem maior
discussão tanto na Câmara como no Senado.
"Acho que a intenção foi
válida, mas trouxe pontos polêmicos, semelhantes
aos contemplados no PL 6210, do ex-deputado Ivan Paixão,
que se encontra arquivado. Um deles é a permissão
de envio 'uma única vez, proibida a repetição
sem prévio e expresso consentimento do destinatário',
vedando-se a repetição diante de manifestação
contrária. Na verdade o PL busca regulamentar a prática,
e a dificuldade inicial é de se criar um banco de dados
para controlar todo esse processo, a cargo dos provedores
de acesso. Outros problemas poderão surgir a partir
disso, como a operacionalidade dos cadastros e dificuldades
na correta identificação do spammer", relatou
o advogado especializado em Internet e Tecnologia, Omar Kaminski.
Um dos principais acontecimentos neste ano
foi a aprovação do Novo Código Civil
em janeiro. Em artigo, o advogado Renato Opice Blum diz que
o código trará "o reforço legal
na responsabilidade do administrador, que, agora, ainda mais,
deverá não só agir nas questões
preventivas, mas também nas reparatórias. Vale
dizer que os Chief Security Officers (CSOs) têm o dever
legal de não só 'fechar' vulnerabilidades em
sistemas eletrônicos, mas também processar os
responsáveis por invasões, fraudes e outros
ilícitos digitais".
Em termos de normas específicas
na área, 9ª Pesquisa Nacional de Segurança
da Informação constatou o fortalecimento da
NBR ISO/IEC 17799 como a principal norma para implementação
da Gestão em Segurança da Informação,
complementando outras normas, legislações e
regulamentações que já vinham sendo utilizadas
pelas organizações.
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